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Entrevistas
04/11/2011
Para o dicionário da língua portuguesa Michaelis, ela é “qualquer força empregada contra a vontade, liberdade ou resistência de uma pessoa ou coisa”. Para o cineasta, artista plástico e especialista em efeitos especiais, Kapel Furman, ela é a matéria prima. Nos filmes nacionais Carandiru (2003) e O Cheiro do Ralo (2007), o paulistano de 34 anos formado em Cinema, pela FAAP, desenhou tatuagens, fez maquiagens de efeito, efeitos especiais e foi armeiro – isso além dos mais de 43 longas-metragens em que já trabalhou e os que dirigiu. Em seu ensaio fotográfico Ketchup Blow Up, exposto durante o mês de outubro, em Sorocaba, na sede do coletivo cultural Rasgada Coletiva, insere o choque causado pelo vermelho do sangue e pela invasão da violência em cenas cotidianas, um contraste que convida a inúmeras possibilidades de reflexão… Por Mariana Rossi.
De onde você é? Qual a origem do seu nome?
Sou de São Paulo, meu nome é da minha família, a origem é do leste europeu.
Li por aí que tem 32 anos. Confere?
Quase, 34.
Sabe dizer em quantos filmes já trabalhou, ao todo, entre efeitos, direção, tudo?
Longas sim, 43 (incluindo o meu). Curtas eu perdi a conta. Dirigi e produzi quatro curtas e três videoclipes, mas nos que trabalhei com efeitos eu não contabilizei.
O que você fez nos filmes Carandiru e O Cheiro do Ralo, por exemplo, que são os mais conhecidos, talvez os mais comerciais que trabalhou?
Trabalhei no Carandiru bem no começo de carreira. Fiz o desenho das tatuagens e maquiagens de efeito. Mas isso até ser despedido porque confiei em um jornalista sem ética (eu era bem ingênuo na época). Depois voltei para fazer um capitulo do seriado. Em Cheiro do Ralo, fiz efeitos e fui armeiro (no filme, parece que não há efeitos, mas tem, inclusive concorreu como Melhores Efeitos no prêmio da Academia de Cinema Brasileiro – o “porquê” eu não sei). Mas eu não diria que o Cheiro do Ralo é comercial. Fez um sucesso em termos comerciais, mas a produção, inicialmente, tinha um perfil independente. De certa forma, se você considerar o marketing envolvido na produção, Encarnação do Demônio foi bem mais comercial.
Por que o sangue, as armas, o terror? Como você foi parar nessa estética para se expressar?
Acho que são referências com as quais eu me identifiquei desde sempre. Não a violência real, mas aquela fuga da realidade que está presente nos filmes de ação e terror, nas histórias em quadrinhos e desenhos animados. Nunca gostei do discurso político/social moralista, de um jeito ou de outro. Então, trabalhar com temas e histórias ligadas a sangue, ação, armas e terror me dá uma licença para fugir da realidade e do politicamente correto. Isso além da questão estética, das possibilidades plásticas que se têm quando se trabalha em uma cena ou imagem deste gênero. Elas são muito maiores do que em uma comédia romântica ou em um filme água com açúcar.
Agora, admito que, em alguns casos, é por pura diversão. Uma vez, me perguntaram qual era a razão do sangue e da violência gratuita no filme, respondi que sangue e violência são a razão.
Quais foram e são suas referências?
No cinema, Sam Peckinpah, Walter Hill, John Carpenter, Sergio Leone e Corbucci. Nas histórias em quadrinhos, Garth Ennis, Sam Keith e Will Eisner. Em artes plásticas, Francis Bacon, claro, mas como extras também Sidney Nolan e Umberto Boccioni.
O Zé do Caixão é o maior ícone trash/terror/horror no Brasil, certo? Mesmo assim, seu trabalho nunca foi levado a sério pelo grande público por aqui, apesar de ele ser “supercult” internacionalmente. A que isso está relacionado, na sua opinião? Há semelhanças entre o trabalho de vocês?
Nesse caso, acho que a personagem Zé do Caixão conspirou contra o criador, José Mojica Marins. O público passou a não saber diferenciar o autor da criação, e ele acabou se tornando uma sátira de si mesmo, o que acabou ofuscando a percepção da qualidade da sua obra, como um todo. Todos conhecem o Zé do Caixão, mas poucos assistiram, realmente, os filmes de José Mojica Marins. No entanto, o cinema de gênero tem como parte intrínseca não agradar a todos e criar controvérsias, principalmente, porque não tem a obrigação de ser ameno e digerível, como o cinema “mainstream”. Em parte, por estar atrelado a baixos orçamentos e, em parte, por não querer se contentar em fazer o que já foi feito (quer dizer, alguns fazem isso, no cinema de terror também tem “bundões”). O fato de alguém escrever que seu filme é uma porcaria, por exemplo, significa que, pelo menos, ele causou impacto suficiente para essa pessoa gastar seu tempo escrevendo a respeito. O que mata um filme é ele passar como indiferente.
Embora tenha trabalhado em três excelentes oportunidades com o Mojica, não consigo pensar em semelhanças do meu trabalho com o dele. Beiram a mesma temática, mas os estilos são bem diferentes.
De forma geral, o cinema nacional deu um salto gigante nesses últimos anos. Isso está chegando também entre os filmes de terror/horror etc? Como está esse mercado por aqui?
Sim, comparado com o coma dos anos 90, o cinema nacional voltou a viver na virada do século, mas, particularmente, acho que ainda é bem adolescente e mimado. Com relação ao cinema de gênero, ele passou a ganhar espaço e, de certa forma, aos poucos, começa a caminhar junto a outros estilos e temas do cinema. O efeito fascista do Cinema Novo está se diluindo e as pessoas e cineastas começam a ver o cinema como um todo, e não dividido em gêneros que são cinema e gêneros que não são cinema. É engraçado que, às vezes, vejo pessoas que fazem parte do círculo do cinema underground se ofendendo com isso, e me pego também me irritando quando um diretor hype de publicidade joga fora uma oportunidade de fazer um bom filme, copiando um remake do Sexta-feira 13, mas já sou velhinho para entender que isso faz parte do processo.
Em termos de produção, eu diria que estamos avançando. Em termos de mercado, em micro escalas, e entre grupos dedicados, específicos. Pensando em uma escala de distribuição internacional, me parece difícil o mercado brasileiro se destacar ainda.
Você falou sobre a popularização de Tarantino no cinema mundial. A que atribui isso? Aliás, essa popularização da estética da violência que ele tem trazido deve ser positiva para você, para este mercado também abrir portas no Brasil… Certo? Como vê isso?
Em uma analogia não muito boa, acho que o que o Tarantino faz é o que um frigorífico faz com hambúrguer: ele pega todas as partes do boi que o público, em geral, não quer consumir (mas que algumas pessoas consomem e se deliciam, fazendo parrilladas e buchadas), como miúdos, entranhas e gorduras, depois tritura, processa tudo e transforma em um hambúrguer congelado de aparência inofensiva, que todo mundo quer consumir.
A longo prazo, vejo isso como uma introdução homeopática do cinema de gênero. Claro, isso é positivo, mas também tem o efeito negativo de fazer as pessoas confundirem cinema de gênero com cinema genérico. Talvez o problema, nesse momento, seja que os cineastas estão mais preocupados em fazer a imagem de cineasta do que fazer filmes.
A violência não choca mais? O que você quer dizer com a sua exposição, com seus filmes, com seu trabalho?
Não vejo como se a violência diária não chocasse mais. Talvez estejamos anestesiados e indiferentes demais com a constante presença dela. Mas a violência como estética não tem relação direta com isso, ela acaba sendo um pincel ou uma cor de tinta a mais para se pintar um ponto de vista ou se expressar. De fato, a expressão está relacionada à forma como a violência se insere no nosso cotidiano. Ela se apresenta como constante nos meus trabalhos e como protagonista na exposição Ketchup BlowUp. Não como discurso, mas como matéria prima plástica. Neste projeto, tento trabalhar esse conceito introduzindo a violência e o sangue de forma sutil, em cenas pacatas do subúrbio do nosso dia a dia. Ao mesmo tempo em que ponho em questão a estética, trabalho a violência como algo não agressivo e que está presente, como o ato de escovar os dentes pela manhã e, em alguns casos, até o paradoxo dela na beleza.
Quanto à análise do conjunto, cabe ao espectador usar suas próprias referências para se relacionar com a obra.
Você entende que as pessoas, hoje, se chocam mais com a ficção do que com a realidade? Elas estão mais frias? Mais violentas?
Não, ainda acho que a realidade ganha, é por isso que está cada vez mais difícil fazer filmes de terror. O fácil e rápido acesso a informações, bem como a extrapolação da mídia na exploração de imagens chocantes, ao invés do investimento em conteúdo, faz, certamente, com que as pessoas estejam hoje mais acostumadas com imagens fortes e gratuitas. A pressão do contato direto do cidadão com a violência acumula cada vez mais, sem válvula de escape, e me parece que a ficção não dá mais conta disso. Não diria que elas estão mais frias, mas mais “calejadas”. Porém, nada como um passeio pelo hospital de infectologia para mudar isso.
O que eu sinto é que o espectador vê como um caminho mais fácil se indignar e censurar uma ficção do que se indignar com a realidade, que dá muito mais trabalho para mudar. Outras mídias, como a fotografia, escultura ou a pintura ainda têm o poder de surpreender por não serem tão comuns ou presentes no dia a dia quanto o cinema e a televisão.
Queria responder alguma pergunta que eu não fiz?
Se deixar, eu preencho páginas e páginas me empolgando no assunto, então é melhor parar por aqui.