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Reportagens
20/01/2012
Se você já fez as malas e está preparada para esperar o fim do mundo em uma temporada de férias prolongadas no Caribe, acompanhada de um colorido drink à beira-mar, é melhor verificar se o hotel faz reembolso. Especialistas de diversas áreas garantem: o mundo não acabará – pelo menos, não em 2012. Por Thiago Ribeiro
Esqueça os cenários catastróficos de filmes como O Dia Depois de Amanhã (2004) e 2012 (2009), só para citar os mais recentes. A Terra se tornando uma bola de neve em questão de dias? Asteroides bombardeando o planeta com mais intensidade que um jogo de vídeo game? “Do jeito que está no cinema, só no cinema”, garante o professor doutor em geofísica, Afonso Vasconcelos Lopes, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas, da USP. O especialista é categórico ao afirmar que não há desastres naturais tão colossais a ponto de erradicar a raça humana de uma única vez.
A concepção de que o mundo acabará em 2012, mais precisamente em 21 de dezembro, é resultado de uma má interpretação dos calendários da civilização maia, explica Yone de Carvalho, professora doutora em História, especializada em História Antiga e Medieval, na PUC-SP. Eles utilizavam três modelos: “o religioso correspondia a 260 dias ou 20 grupos de 30 dias e apresentava as referências para a previsão do futuro; outro era um calendário agrícola, solar, correspondente a 18 meses de 20 dias e 5 dias extras – o que perfaz 365 dias. Da combinação deles, alguns grupos calculavam a localização temporal de acontecimentos, no passado e no futuro, baseados na ideia de precisão matemática de um sistema de contagem vigesimal”, esclarece Yone, acrescentando que esse terceiro calendário começa em 12 de agosto 3.114 a.C. e termina em 21 de dezembro de 2012. Aí é que mora o perigo para quem interpreta esse fato erroneamente.
O professor de história Marcus Vinicius de Morais defende que o fim do calendário maia representa o encerramento de um ciclo, e não o encerramento da vida humana. O professor explica que, ao contrário das civilizações contemporâneas e ocidentais que imaginam o tempo de forma linear, as culturas indígenas antigas têm uma concepção cíclica. Isso significa que o fatídico 21 de dezembro de 2012 representaria para os maias o fim de um ciclo e o começo de outro, com grandes mudanças. O calendário maia de 365 acaba todo ano e, nem por isso, o mundo acaba junto, exemplifica Morais.
Relatos como o dos maias, diz Yone, são “expressões culturais que se confirmam para
os que nelas acreditam, pois interpretam o ocorrido de acordo com o que era ‘esperado’. A linguagem religiosa é metafórica e alegórica, e os sacerdotes interpretam
essa linguagem fazendo previsões”.
Fascínio pelo fim
Para Morais, o fascínio que teorias catastróficas desperta nas pessoas é inerente ao comportamento humano, já que, segundo ele, em vários momentos da história, as sociedades já imaginaram o fim do mundo, sendo que “ele está associado aos medos e problemas reais de cada época”. Como exemplo, o professor cita a peste negra no século XIV, que assolou a Europa e matou um terço da população da época – alguém consegue imaginar uma pessoa desse período que não tenha imaginado que o fim da humanidade havia chegado? Nos anos 1940, lá estava o medo do fim novamente, dessa vez, ocasionado pela atmosfera de tensão da Guerra Fria e a possibilidade de uma ameaça nuclear. De acordo com Morais, até o cinema reflete essa instabilidade dos motivos que acabariam com a humanidade. Na primeira versão de O Dia que a Terra Parou (1951), por exemplo, a trama mencionava a corrida armamentista e as disputas pelo poder. Já na versão de2008, a ameaça ao planeta são os desastres climáticos. “Cada sociedade cria e narra o fim do mundo de acordo com seus valores, seus medos e inseguranças”, conclui.
Desastres naturais
Supervulcões, Teoria da Terra Bola de Neve, Teoria do Deslocamento de Massas… O que não faltam são teorias científicas para garantir que 2013 não chegará. Elas existem? Sim. Podem acontecer? Sim. Estaremos aqui para ver? Provavelmente, não. O professor de geofísica da Universidade São Paulo, Afonso Vasconcelos Lopes, esclarece que, na verdade, todas essas teorias e previsões climáticas catastróficas podem ocorrer, mas demoram milhões de anos, numa escala de tempo geológica, enquanto nós vivemos no tempo histórico. Essa diferença significa, basicamente, que a humanidade não estará aqui quando situações extremas como essas acontecerem. A probabilidade de um evento geológico dentro da história do homem acontecer, como um supervulcão entrar em erupção, é de 0,7%.
Outra possibilidade especulada pelos que se recusam a acreditar que terão que continuar pagando as contas em 2013 é a Teoria do Deslocamento de Massas, que afirmaria que pode haver um deslocamento da crosta terrestre tão intenso que causaria terremotos de escalas monstruosas. Novamente, uma má interpretação. O doutor em geofísica explica que a crosta terrestre é como uma casca de laranja e, sob ela, há o manto da Terra – aí é que começa a confusão, desde o ensino fundamental. Na figura dos livros didáticos, o manto é pintado de vermelho e as pessoas acabam presumindo que ele é composto de magma, consequentemente é líquido. Porém, o manto é formado pela rocha olivina, mais densa que paralelepípedo, e que recebe esse nome por sua cor de oliva. Os novos livros, inclusive, deverão ter o manto pintado de verde para evitar essa confusão, acrescenta Lopes. Sendo assim, deslocamentos da crosta terrestre acontecem, mas demoram até 50 milhões de anos. Até mesmo o resfriamento do planeta levando a uma nova Era Glacial (Teoria da Bola de Neve, também utilizada como argumento para o fi m dos tempos), que segundo Lopes está realmente ocorrendo, demorará muito tempo. “Daqui dez milhões de anos terá muita neve”, diz. A humanidade sobreviverá? A previsão é que o ser humano esteja na Terra pelos próximos 50 mil anos. Depois? O professor é otimista e declara que, com as invenções tecnológicas, poderemos estar em… Marte!
2+0+1+2
A princípio, geofísicos e numerólogos podem parecer não ter muito em comum, mas no assunto “fim do mundo”, a opinião deles é bem parecida: não será dessa vez que a Terra passará dessa para uma melhor. A numeróloga Aparecida Liberato explica que o resultado da soma de 2012, cinco, indica que o ano será de grandes transformações. “A energia cinco é bastante explosiva, instável, não uniforme. Não dará para fazer planos, as coisas acontecerão rapidamente”, prevê. Aparecida diz que a partir da instabilidade econômica e política de 2012, para o mundo se recompor, precisarão ocorrer renovações.
Para dezembro, a numeróloga diz que a energia oito representa a disputa de poder (ano 2+0+1+2 mais o mês 1+2 = 8). O que se supõe que aconteça é que, quando chegar dezembro, as instabilidades sofridas durante o ano poderão culminar com dificuldades de entendimento entre as pessoas, analisa Aparecida.
Já para o fatídico 21 de dezembro de 2012, a previsão é de energias pesadas, uma vez que o número resultante da soma 8+3 (2+1=3) é 11, número que potencializa atritos e dificuldades nos entendimentos. Ao mesmo tempo, Aparecida informa que 11 é o número mestre e traz a necessidade de busca espiritual.
Mas não se preocupe, a energia das cores poderá ser utilizada para ajudar a passar pela tensão que 2012 provocará, segundo a numerologia. A cor desse ano é o azul claro, que deverá ser utilizado na decoração, no comércio, no vestuário etc. Ela traz serenidade, proteção e clareza de ideias para que haja entendimento e, através disso, para que se chegue aos entendimentos necessários, tranquiliza Aparecida.
Mas, afinal, o mundo acaba ou não acaba em 2012? “Não acredito nisso. Já li muito sobre o que os maias falam e apenas em uma das inscrições eles falam dessa data como o final de um ciclo. É importante que as pessoas saibam, porque isso pode gerar pânico generalizado, coletivo, e que não contribui para que as pessoas tenham serenidade, que é tudo o que será necessário para o ano que se inicia”. Pois é, desse jeito, as férias prolongadas em uma ilha paradisíaca terão que ficar para outro momento… Enquanto isso, corra verificar se o hotel no Caribe ainda aceita cancelamentos!
Quem foram os maias?
Grupo humano encontrado pelos europeus no século XVI, numa região da América Central (hoje, os estados mexicanos de Tabasco, Campeche, Yucatán, Quintana Hoo e Chiapas), em parte da Guatemala, Honduras, Belize e El Salvador. Alguns historiadores consideram que, na época do descobrimento, os maias já se encontravam em decadência, que vinha desde o século X. Antes, no que se considera um período clássico e pós-clássico, eles desenvolveram uma rica cultura comum a essas regiões, sobretudo em termos científicos e artísticos. Viviam em cidades e foram dominados pelos colonizadores, pois estavam enfraquecidos devido a vários fatores, como epidemias, esgotamento do solo, secas prolongadas e pressão de outros povos, como os astecas, por exemplo. Fonte: Yone de Carvalho, especialista em História Antiga e Medieval.
A astrologia diz…
“Que o mundo é infinito”. Para a astróloga Mara Muniz, a ideia do fim do mundo é irreal: “2012 é o final de um ciclo, no qual um novo campo de percepção estará disponível para aqueles que quiserem evoluir. Será um momento de transformação de valores, de nível de consciência e de visões espiritualistas do homem”.