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Peça ‘Eu Amarelo’ destaca a atualidade da obra de Carolina Maria de Jesus em Fortaleza

Espetáculo “Eu amarelo: Carolina Maria de Jesus” emociona público no Nordeste

Pela primeira vez em temporada no Nordeste, o espetáculo “Eu amarelo: Carolina Maria de Jesus” está emocionando o público cearense neste fim de semana. Em cartaz na Caixa Cultural Fortaleza desde o último dia 07, a peça é estrelada pela atriz Cyda Moreno e terá apresentações neste sábado (09) e domingo (10) e no próximo fim de semana, de sexta-feira (15) a domingo (17).

Com direção de Isaac Bernat e dramaturgia de Elissandro de Aquino, o monólogo costura, em pouco mais de uma hora, diferentes fases da vida e da obra da escritora mineira Carolina Maria de Jesus, considerada uma das mais importantes vozes negras da cultura brasileira. Nascida em Sacramento (MG) apenas 26 anos após a abolição da escravatura, Carolina viveu boa parte da vida na Favela do Canindé, em São Paulo, em um dos 180 barracos que foram instalados em meio à lama e ao lixo.

Desde cedo, encantou-se pela literatura e começou a escrever sobre seu cotidiano como mulher negra, mãe, catadora de papéis e favelada. Seu primeiro livro, “Quarto de despejo: diário de uma favelada” (1960), um retrato sensível e doloroso sobre a vida em Canindé, a tornou mundialmente conhecida e, especialmente nas últimas duas décadas, vem inspirando diversos livros, montagens teatrais e pesquisas acadêmicas. É ele o ponto de partida para “Eu amarelo”, que também remonta a fragmentos de obras como Casa de alvenaria: diário de uma ex-favelada (1961) e Diário de Bitita (1982).

Indicado ao Prêmio Shell de Dramaturgia em 2023 pela adaptação, o produtor e dramaturgo Elissandro de Aquino conta que, apesar de ser especialista em literatura brasileira, africana e portuguesa, nunca estudou ou leu Carolina durante sua formação acadêmica. Por isso, ficou impressionado quando, há cerca de uma década, uma amiga indicou a escritora em uma lista de artistas negras brasileiras. “A partir daí, comecei a ir atrás da obra dela. Quando li ‘Quarto de Despejo’, foi um desbunde”, lembra.

A obra de base da mineira o inspirou a pensar em um texto que mostrasse as diversas faces de Carolina – da luta contra a fome e o racismo à Carolina ‘namoradeira, caliente’ e bem-humorada que cantava ópera, ouvia música clássica e escrevia incansavelmente no minúsculo barraco onde morava com os filhos. “Há uma crítica que falam sobre Carolina, que toda a obra dela é muito baseada na questão da fome. Eu não concordo. Eu acho que ela vai falar da forma como uma experiência dela, mas isso também pode abrir pra gente outras camadas, de outras fomes, inclusive”, pontua.

Aquino explica que o nome da peça surgiu de uma passagem de Despejo em que Carolina, já sem comer há muito tempo, começa a ver tudo amarelado. Ao colocar comida na boca, aos poucos, as cores ao seu redor vão voltando. “Acho que que o amarelo se configura nesse lugar de falta, de ausência”, explica.

Durante todo o espetáculo, na voz potente e emocionada de Cyda – que ocupa o palco durante 75 minutos, trazendo alegria àquela criança que era afastada dos holofotes na infância –, o texto de Carolina Maria de Jesus ganha cadência e é recitado, muitas vezes, em sua integridade, ainda que fragmentos externos aos livros da autora sejam incluídos em alguns momentos da montagem.

Após uma estreia com casa cheia em Fortaleza, Cyda Moreno comemorou o fato de poder rodar o Nordeste com a obra de Carolina. Ela conta que, apesar de o espetáculo ter estreado há seis anos, somente agora houve incentivo para a equipe de “Eu amarelo” ir além do circuito sudestino de teatro. Depois das dez apresentações na capital cearense, o monólogo seguirá para uma temporada de três semanas em Salvador (BA).

Para ela, a própria consolidação de um público de teatro negro encontra eco na obra de Carolina e de outras escritoras e intelectuais, como Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro, que, por meio de suas palavras, incentivaram um debate sobre a desmistificação da democracia racial do Brasil. Essa obra de resistência e representatividade das mulheres negras, liderada por escritoras como Carolina, continua atual e necessária nos dias de hoje.

Por fim, Cyda destaca a importância de se manter viva a memória e o legado de mulheres negras que abriram caminho para as gerações futuras. O espetáculo “Eu amarelo: Carolina Maria de Jesus” representa não apenas uma homenagem a essa grande voz da literatura brasileira, mas também um convite ao público para refletir sobre as lutas e conquistas das mulheres negras ao longo da história e as questões sociais que ainda permeiam nossa sociedade.

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